Em fevereiro de 1996, um fato inédito despertou a atenção das autoridades médicas do estado de Pernambuco, Brasil. Em uma clínica de hemodiálise em Caruaru pacientes começaram a apresentar náuseas, vômitos após procedimentos nos dialisadores. Mais de sessenta pacientes morreram. Após investigação das autoridades de saúde, se descobriu a causa das mortes: toxinas de cianobactérias. Em 1999, o Rio Darling, na Austrália, ficou coberto por um tapete verde de cianobactérias, que teve como conseqüência a morte de vários animais selvagens e também do gado. A descrição de ocorrências de cianobactérias e a contaminação de ambientes aquáticos por suas toxinas têm sido relatadas em vários países como Austrália, Inglaterra, China, África do Sul, Alemanha, Itália, Argentina e Brasil, sendo, portanto, parte da literatura toxicológica mundial. Estes fatos e outros envolvendo morte de animais, desequilíbrio dos ecossistemas aquáticos e perda de recursos financeiros trouxe varias perguntas à cena. O que são cianobactérias? Como afetam o Meio Ambiente? Existe remediação para um ambiente impactado por toxinas de cianobactérias?


Cianobactérias são organismos procariontes, pertencentes ao grupo das bactérias, e calcula-se que o seu surgimento na terra data de 3,5 bilhões de anos. São organismos amplamente difundidos, existem em ambiente de condições extremas como fontes termais, regiões geladas ou até mesmo em regiões desérticas, onde aparecem em relações simbióticas com fungos. Normalmente são organismos encontrados nos ambientes aquáticos (fitoplâncton) e que “geralmente” não causam problemas devido a dinâmica dos ecossistemas, que regula a permanência dos organismos, através de vários fatores entre os quais reprodução e predação. Entretanto sob condições ideais tais organismos podem apresentar um crescimento massivo exagerado conhecido como floração (“bloom”, em inglês).


Entre as condições propícias para que ocorra um crescimento explosivo estão temperaturas médias acima de 25ºC, pH do meio entorno de 7,5 (de neutro a levemente alcalino), exposição prolongada a radiação solar e principalmente a presença em excesso de compostos nitrogenados e fosfatados. Este último fator está diretamente ligado a poluição, visto que, com o grande desenvolvimento e aumento populacional das cidades modernas, a poluição tem ocupado lugar de destaque. Devido às atividades humanas, que produzem excessivas descargas de esgotos domésticos e industriais, abusiva utilização de adubos químicos, estrume e rejeitos de efluentes de agroindústrias, todos estes fatores promovem a entrada de matéria orgânica nos lagos, rios e estuários, gerando a eutrofização dos ambientes aquáticos. Este o principal fator para o surgimento das florações de cianobactérias tóxicas e de algas.

 
O fato que chama a atenção é que as florações de cianobactérias têm geralmente conseqüências visíveis, porém danosas, para os organismos e o meio ambiente. Elas alteram o equilíbrio dos ecossistemas aquáticos, criam um biofilme superficial de cor verde, alterando a transparência da água e conduzindo a desoxigenação de lagos e rios. Além disso, liberam substâncias que produzem gosto e odor desagradáveis, afetam a potabilidade dos reservatórios de uso humano e até mesmo em áreas recreacionais e de banho a qualidade da água fica comprometida. A produção e liberação de toxinas de alto potencial tóxico é a característica mais marcante das florações.
O grande problema, que gera preocupação às autoridades e gerentes das estações de tratamento de água, é o fato de que algumas das toxinas produzidas por cianobactérias não são facilmente removidas por processos convencionais de tratamento de água. Existem estudos comprovando que tais toxinas resistem até mesmo a fervura. Dentre as cianotoxinas a mais estudada é a microcistina-LR. A preocupação em âmbito mundial fez com que a Organização Mundial da Saúde (WHO) em 1998, sugerisse um valor padrão de 1,0 µg L-1 (1 micrograma por Litro) de microcistina-LR (valor máximo permitido) na água utilizada para consumo humano. Alguns países como França e o Brasil adotaram este valor como padrão.


No Brasil e principalmente no Rio Grande do Sul a ocorrência de florações de cianobactérias tóxicas não é novidade, havendo registros de pelo menos 15 anos atrás. Relatos científicos têm descrito que ocorre a entrada de diferentes tipos de cianobactérias pela região norte da Lagoa dos Patos (RS), que ao alcançarem a região sul da Lagoa (estuário) encontram águas ricas em nutrientes, derivados dos esgotos domésticos e industriais, produzindo florações extensas, geralmente no verão.
A grande pergunta é: existe solução ou remediação para um corpo de água atingido por floração de cianobactéria tóxica? O primeiro passo a ser dado em caso de suspeita da ocorrência de uma floração tóxica é o MONITORAMENTO. O monitoramento é um passo importante, visto que é através deste que se identifica se é realmente floração de cianobactérias ou de algas, e no caso de floração de cianobactérias quais gêneros estão envolvidos e em que concentração estão ocorrendo por mililitro (mL) de água. O passo seguinte, após a verificação da ocorrência de cianobactéria potencialmente tóxica, é a CONSTATAÇÃO DA TOXICIDADE e a verificação do tipo de CIANOTOXINA presente no meio aquático do manancial. Existem poucos laboratórios no Brasil que fazem o monitoramento e análise de toxinas de cianobactérias. Estes laboratórios utilizam-se de bioensaios (aceito e recomendado pelo WHO) para comprovação do efeito tóxico das cianotoxinas produzidas durante as florações tóxicas. O passo seguinte é colocar em prática processos físicos-químicos ou medidas de biodegradação e bioremediação para a remoção das toxinas. Diante dos resultados obtidos com os processos empregados, deve-se TOMAR MEDIDAS, que podem variar desde interditar uma área recreacional ou até mesmo impedir o uso como água potável de um ambiente impactado por cianotoxinas. 
No Brasil a importância destas medidas foi enfatizada pela recente portaria 518 de março de 2004 que determina as Empresas de Abastecimento de Águas a promoverem em suas ETAs (Estações de Tratamento de Água) o monitoramento e analise de cianotoxinas na água que é fornecida a população.


PUBLICAÇÕES UTILIZADAS.

BRIAND, JF.; JACQUET, S.; BERNARD, C. & HUMBERT, JF. 2003. Healh hazards for terrestrial vertebrates from toxic cyanobacteria in surface water ecosystems. Veterinary Research, 34:361-377.

CHORUS, I. & BARTRAM, J. (Eds.) 1999. Toxic cyanobacteria in water – A guide to their public health consequences, Monitoring and management. WHO, E & FN Spon, London.

CODD, G. A.; MORRISON, L. F. & METCALF, J. S. 2005. Cyanobacterial toxins: risk management for health protection. Toxicology and Applied Pharmacology, 203 (3): 264 – 272.

MATTHIENSEN, A.; YUNES, J. S. & CODD, G. A. 1999. Ocorrência, distribuição e toxicidade de cianobactérias no estuário da Lagoa dos Patos, RS. Revista Brasileira de Biologia, 59(3): 361-376.

WHO, 1998. Cyanobacterial toxins: microcystin-LR, Guidelines for Drinking-Water Quality, 2nd edition, Word Health Organization, Geneva.

YUNES, J. S.; SALOMON, P. S.; MATTHIENSEN, A.; BEATTIE, K. A.; RAGGETT, S. L. & CODD, G. A. 1996. Toxic blooms of cyanobacteria in Patos Lagoon Estuary, southern Brazil.. Journal of Aquatic Ecosystem Health, 5: 223-229.

YUNES, J. S.; NIENCHESKI, L. F. H.; SALOMÓN, P. S.; MARCELO, P.; BEATTIE, K. A.; RAGGETT, S. L. & CODD, G. A. 1998. Effect of nutrient balance and physical factors on blooms of toxic cyanobacteria in the Patos Lagoon, southern Brazil. Verh. Internat. Verein. Limnol, 26:1796-1800.