O Campus Universitário da FURG, RS é uma vasta área de campos e bosques com mais de uma dezena de pequenos lagos ornamentais, que visam amenizar a paisagem e dar guarida a bandos de patos (Sarkidiornes carunculata), frango d água (Porphyriops melanops), gansos (Anasplatyrhynchos sp.) e pássaros pequenos, além de peixes exóticos. No lago maior e mais central, junto ao Centro de Convivência do Campus, as águas são impactadas por matéria orgânica e em tres eventos que monitoramos (outubro de 1995, janeiro de 1997 e dezembro de 2001) suportaram florações tóxicas da cianobactéria Anabaena spiroides. Durante o segundo evento registrou-se grande mortandade de peixes no local, enquanto as águas apresentavam condições de anoxia. Mais tarde, outras florações se repetiram no local, sem estar associadas a mortandades de animais, como as de cianobactéria unicelular Cyanodictium e de Merismopedia quadruplicatum, em épocas diferentes e sem toxicidade avaliada. Em meados de 1998, o lago passou a desenvolver também a planta aquática Azolla que logo tomou conta de toda a superfície nos meses de verão. Visando evitar o assoreamento do lago e o impacto de imensa carga de matéria orgânica que fatalmente aconteceria pelo perecimento da planta, a administração do Campus Universitário tratou de remover as plantas aquáticas que dominavam a superfície do lago. O trabalho foi realizado com arrastos de rede de nylon de 1-3 cm de malha na superfície e também removeu o sedimento e a vegetação das margens, bem como revolveu o fundo do Lago. Imediatamente, em um processo não monitorado, observamos o aparecimento de grande massa algácea no fundo e nas margens e o início da mortandade de aves. No dia 26 de fevereiro de 1999 foram observados 7 patos adultos e 5 filhotes mortos e de 1 frango d'agua morimbundo. Os adultos antes de morrer apresentavam sintomas de letargia e paralisia nos membros inferiores. O frango d'água moribundo, observamos que regorgitava uma massa esverdeada semelhante aos detritos acumulados nas margens. Durante os dias que se sucederam a mortandade, nenhuma cianobactéria filamentosa foi detectada nas águas, porém uma grande abundância de cianobactérias unicelulares foram registradas, chegando a 736 (x106) células/mL. A toxicidade das amostras de superfície foi determinada em amostras congeladas/descongeladas três vezes e filtradas em filtro de acetato de celulose 0,45 mm. Amostras de fundo e das margens foram coletadas com redes de 55 mm de malha, e o filtrado do arrasto de rede foi liofilizado a -30 oC e congelado/descongelado três vezes para o processamento. O conteúdo alimentar da moela do ganso moribundo foi extraído em água, filtrado em acetato de celulose 0,45 mm e analisado como as demais amostras. As vísceras foram conservadas em solução de Bouin e mantidas para análise histopatológica. Todas as amostras foram analisadas para a presença de microcistinas utilizando o imunoensaio específico, enquanto os concentrados com rede foram também testados no teste com camundongos. Todas as amostras analisadas do Lago durante aquele evento continham microcistinas, em níveis entre 0,5204 e 1,0519 µg.l-1 para as águas de superfície e de até 1,33 µg. l-1 acumuladas nas margens. O conteúdo da moela do frango d'água morto também registrou a presença de microcistinas. As florações acumuladas nas margens registraram uma DL50 em torno de 350 mg Kg-1 (peso camundongo). As microcistinas são toxinas típicas de cianobactérias unicelulares como Microcystis aeruginosa e Aphanocapsa e filamentosas como Oscillatoria a ação destas toxinas provocam sintomas típicos de hepatoxicidade. No exame histopatológico observou-se no fígado infiltrado de macrófagos e linfócitos na região periportal e interaretençào biliar. Os músculos estriados apresentavam severa hemorragia com ruptura das de fibras musculares, necrose segmentar e presença de hemosiderina. Nos rins verificou-se congestão e hemorragia principalmente na região pélvica. No sistema nervoso central também apresentava hemorragia, principalmente nas meninges. Amostras da água contendo a cianobactéria unicelular foram conservadas e enviadas para identificação. Uma semana após a referida mortandade, nenhum animal mais foi observado de ter sido atingido, e os níveis de toxinas na superfície incluíram-se nas faixas dos não detectáveis do imunoensaio utilizado. O pequeno ecossistema existente naquele lago ornamental, serve para demonstrar-nos a fragilidade deste sistemas biológicos e a sua extrema suscetibilidade ao perecimento.

 

Este texto acima foi apresentado e publicado no livro de Resumos do VII Congresso Brasileiro de Limnologia, realizado em Florianópolis em julho de 1999. Mais recentemente, em dezembro de 2002 com a repetição do evento emitimos, o seguinte parecer que foi divulgado pela intranet da SUPPESQ - FURG no intuito de esclarecer as diversas solitações de explicações (e também de intervenção) que temos recebido sobre o visível problema das águas verdes e mortandade de peixes no Lago maior em frente ao Centro de Convivência no Campus Carreiros da nossa Universidade, gostaria de contribuir com a nossa opinião técnica sobre o problema. As águas verdes devem-se ao super crescimento de duas cianobactérias (algas Cianofíceas): Anabena spiroides e Cyanodictium trazendo grande quantidade de pigmentos à coluna d`água provocando as coloracões verde e azulada. As cianobactérias Anabaena spiroides são produtoras de neurotoxinas (vide nossa referencia em Monserrat et al. (2001) e as Cyanodictium de hepatoxinas... (vide nossa referencia em Ferreira et al (1998). A princípio a mortandade dos quase 200 peixes contados na data de hoje (04/01/2002) deva ter se iniciado quando da mudança do vento de NE para Sul/SO entre os dias 31 a 1o de janeiro. O vento NE predominante no Campus Carreiros e aera a superfície do Lago e o mantendo-o oxigenado mesmo sob as altas temperaturas e insolação das ultimas semanas. Entretanto o vento Sul/SO encontra no Edificio do Centro de Convivência e do morro artificial à sua direita uma barreira fisica que prejudica a aeração da superficie do Lago. Somado a alta carga de materia orgânica que também consome o pouco oxigênio disponível, ocasiona a carência de oxigênio as espécies de peixes no local. A falta de oxigênio facilita a predominância do ambiente redutor que disponibiliza as formas ideais de nutrientes ao crescimentos das algas nocivas mencionadas acima ocasionando o aparecimento da águas verdes. Ate o momento não notou-se qualquer anormalidade nas aves (patos, marrecos, biguás, gansos e outros) ou nos repteis (tartarugas e lagartos) do local. Hoje a tarde a SAMC providenciará a retirada dos peixes mortos do local. Como visto esta mortandade de peixes é um problema multidisciplinar passando pela química, limnologia, farmacologia, biologia, meteorologia e Engenharia Civil. E' um bom motivo para reafirmarmos a importância dos trabalhos integrados de todas as áreas, que só o ambiente acadêmico pode propiciar. Atualmente temos conhecimento de trabalhos que estão sendo realizados abordando a quantificação e a identificação das aves que habitam o local e de levantamentos histórico-geográficos sob o crescimento do Campus e a sua ocupação e impacto ambiental.